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Europa está atrasada na corrida espacial militar
16 de novembro de 2007 · Categoria: NotíciasNa galáxia do espaço militar, a posição da Europa aparenta-se àquela de um satélite em órbita baixa que estaria assistindo, sem nada poder fazer, à passagem de uma sonda americana a caminho de Marte. A discrepância orçamentária e tecnológica não pára de aumentar: só os Estados Unidos são responsáveis por mais de 90% das despesas mundiais neste setor. Eles gastam vinte vezes mais para ocupar o espaço militar do que os 27 países membros da União Européia juntos, e são os únicos que dispõem de todo o elenco das ferramentas que permitem observar, detectar, escutar, comunicar-se, alertar, posicionar-se e, provavelmente, num futuro próximo, fazer a guerra a partir do espaço. Se ele for seguir o seu ritmo atual de crescimento, o mercado global do espaço será quinze vezes mais importante em 2025. Ora, por natureza, o espaço é o terreno das tecnologias que beneficiam tanto ao setor civil quanto ao militar: as aplicações civis têm conseqüências militares, e reciprocamente. Esta “nova fronteira” comercial possui o seu equivalente militar. Para comprovar esta evolução, podemos citar um indício em meio a muitos outros: as tropas que estão atuando no terreno no Afeganistão utilizam sete vezes mais comunicações por satélite do que as forças aliadas durante a primeira guerra do Golfo.
Esta assimetria fundamental entre a Europa e os Estados Unidos encontra a sua explicação em razões históricas, que, contudo, não justificam a incapacidade dos europeus de responderem à altura ao desafio que lhes é imposto. Eles vêm sendo desafiados em primeiro lugar pelos Estados Unidos e a Rússia, mas também pelos novos protagonistas do espaço militar que são a China, o Japão, a Índia, Israel, o Brasil. Atualmente, cerca de trinta países vêm empenhando esforços orçamentários significativos para dotar-se de capacidades militares espaciais. “Intelectualmente, os europeus compreenderam muito bem o fato de que o espaço é estratégico”, resume um industrial. “Mas eles não transformaram este entendimento em ação no plano orçamentário. Uma das conseqüências negativas deste atraso tecnológico é o fato de que, cada vez menos nós conseguimos operar de maneira interativa com os americanos”.
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Engenheiros trabalham na nave russa Soyuz na base de Baikonur, no CazaquistãoÉ verdade que, durante trinta anos, o espaço tem sido reservado aos protagonistas da Guerra Fria: os Estados Unidos e a URSS. Os satélites eram de fato as ferramentas utilizadas para vigiar os programas balísticos e nucleares do adversário.
Mas, desde então, nada mudou verdadeiramente. No contexto da guerra moderna, é o espaço que proporciona a superioridade da informação, e, em conseqüência, aquela da decisão e da ação. No final de 2004, os Estados Unidos e a ex-URSS/Rússia haviam lançado mais de 2.000 satélites militares, contra 40 a 50 para os outros países. Segundo dados do Eurospace Center, 244 satélites militares foram colocados em órbita entre 1995 e 2004, dos quais 93 para os Estados Unidos, 129 para a Comunidade dos Estados Independentes (CEI), 12 para a Europa, e 10 para o resto do mundo.
Enquanto os mísseis e as bombas continuam sendo os meios mais eficientes, e, sobretudo, os menos dispendiosos, para infligir perdas e danos ao adversário, e enquanto o espaço ainda não se tornou um espaço de batalha, a manutenção desta situação – conforme demonstrou o exemplo do tiro antimíssil chinês de 11 de janeiro – é frágil. Longe de ser um santuário voltado para a ciência, o espaço é de fato um imenso reservatório de potência e de enriquecimento, e também uma selva sem lei.
Embora o tratado sobre o espaço de 1967 tivesse instituído o banimento da instalação de armas de destruição de massa, em particular nucleares, ele não inclui nenhuma disposição destinada a impedir a militarização do espaço, inclusive sob a forma de armas anti-satélites. Confortados pela sua dianteira tecnológica, os Estados Unidos, conforme foi confirmado pela nova política espacial americana anunciada em 31 de agosto de 2006, estão decididos a conservar uma total liberdade de ação no espaço, considerado como vital para os seus “interesses nacionais”. Eles também estão determinados a negar aos seus adversários o direito de acesso ao espaço, enquanto, paralelamente, eles se opõem a qualquer novo regime jurídico que venha a fazer obstáculo aos seus programas.
Portanto, a América permaneceu indiferente aos pedidos em favor de um tratado visando a impedir uma corrida dos armamentos no espaço. Considerando a sua dianteira em relação ao resto do mundo, os americanos não vêem interesse algum em aceitar restrições que só seriam aplicáveis em detrimento deles mesmos. Europeus e americanos já tentaram construir, juntos, uma arquitetura espacial, a qual esbarrou numa abordagem conceitual divergente, e, sobretudo, na desproporção dos investimentos que cada parte estava disposta a dedicar a este projeto.
Os Estados Unidos mostram serem movidos atualmente por uma vontade de “controle”, e até mesmo de “dominação”, ao passo que os europeus estão falando em “vigilância” do espaço. Os primeiros dedicam mais de US$ 20 bilhões – cerca de R$ 35,35 bilhões – por ano (quantia esta que não leva em conta os programas secretos) ao espaço militar, contra cerca de US$ 1 bilhão (R$ 1,76 bilhão) para os segundos. No seu relatório, divulgado em fevereiro, sobre a política espacial, intitulado “A audácia ou o declínio”, o deputado Christian Cabal e o senador Henri Revol resumem esta situação: “Não existe nenhum programa europeu, e sim uma justaposição de programas nacionais, bilaterais, e até mesmo trilaterais. Cinco países europeus dispõem de sistemas de telecomunicações espaciais militares, mas estes cinco sistemas são todos diferentes”.
Nesse sentido, o sistema de posicionamento e de navegação por satélite Galileo encarna o sobressalto espacial da Europa, mas também a sua caricatura. Por causa da inexistência de financiamentos privados, e em razão do patriotismo industrial de um bom número de Estados, o mais importante de todos os programas destinados a consolidar a independência da Europa está na estaca zero. A França, cujos esforços financeiros destinados ao setor espacial militar representam mais da metade daqueles da União Européia como um todo, vem dando mostras de certo cansaço orçamentário, diante da ausência de uma verdadeira mobilização dos seus parceiros.
Isso porque, no que diz respeito ao espaço militar, as coisas vêm funcionando um pouco da mesma maneira que para a defesa européia: a maior parte dos europeus tem uma visão pouco ambiciosa da independência estratégica do “Velho Continente”, e, neste campo, se satisfazem com as prestações de serviços que lhes oferece Washington. Contudo, a França e os seus principais parceiros europeus têm uma ficha corrida de realizações das quais eles podem se valer no setor espacial militar. Trata-se de realizações nos campos da observação (os franceses Hélios e Pléiades, o alemão SAR-Lupe, o italiano Cosmo-Skymed); das telecomunicações (o francês Syracuse, o italiano Sicral, o britânico Skynet, o alemão Satcom BW); da segurança avançada (o francês Spirale), da escuta eletromagnética (o demonstrador francês Essaim) ou da detecção por meio de radar (Graves). Contudo, estes avanços constituem “nichos” que se integram raramente numa arquitetura européia do setor espacial militar.
Para que esta arquitetura veja a luz do dia, seria preciso, para começar, duplicar (investindo até 2 bilhões de euros – R$ 5,16 bilhões – por ano) o esforço consentido pela Europa neste setor, o que pressupõe alguns sacrifícios: será que os exércitos estariam dispostos a renunciar a uma parte dos seus blindados, dos seus aviões de combate e dos seus submarinos? Será que a Europa conseguirá convencer a si mesma de que o advento de novos protagonistas no espaço militar a obrigará, mais cedo ou mais tarde, a se interessar pela defesa antimíssil e pela transformação do espaço num “arsenal”?
Por enquanto, ela não parece estar seguindo este caminho. Na verdade, ela está agindo como se ela não tivesse assimilado o seguinte princípio estratégico de Clausewitz: “Quem controla as alturas controla o que está em baixo”.
Tradução: Jean-Yves de Neufville
Fonte: [url=http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2007/11/15/ult580u2768.jhtm]http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2007/11/15/ult580u2768.jhtm[/url]
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